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O alumínio na indústria náutica
postado em 22/04/2010
 

 

BARCOS E IATES - Bons ventos

O setor vive o melhor momento dos últimos vinte anos e o metal também participa

Por Rodrigo Rodrigues

O mar está tranquilo no setor que inclui embarcações de todos os portes e para todas as finalidades. Os bons ventos também sopram na direção da indústria do alumínio, uma vez que está presente como matéria-prima estrutural e até nos itens decorativos de lanchas e iates. Segundo Márcio Dottori, diretor técnico da maior feira de barcos do Brasil, a Boat Show, pelo menos 60% da frota de embarcações de pequeno e médio portes, nas áreas de esporte e recreio, é produzida com o metal. O número corresponde a pelo menos 450 mil unidades aportadas em marinas, iates clubes, garagens náuticas e clubes de pesca espalhados pelo país. "São embarcações resistentes a choques e batidas. Ao contrário dos barcos de fibra de vidro, não quebram. Apenas amassam e o reparo é mais simples e barato", descreve.

O especialista também conta que, todos os anos, são fabricados pelos menos 10 mil barcos de alumínio no Brasil - cerca de 800 modelos diferentes disponíveis do mercado, que atraem os compradores justamente pela durabilidade e leveza. "Quem quer um barco relativamente barato e forte, sempre acaba preferindo o material. São embarcações usadas mais para o exercício profissional, diferentemente dos grandes iates de luxo. Estes, entretanto, contam com a presença do metal em detalhes de acabamento.

Segundo a Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e seus Implementos (Acobar), nos últimos cinco anos, o mercado de barcos para a prática de esporte e recreio tem crescido, em média, 10%. A categoria inclui tanto os barcos de pesca, quanto os grandes iates de luxo, que chegam a custar até US$ 5 milhões, e ostentam capotas, frisos, grades e adereços decorativos de alumínio - parte do acabamento, que corresponde a pelo menos 20% do valor unitário dos barcos, segundo Paulo Sérgio Renha, presidente da Acobar.

Entre 2006 e 2008, a produção de barcos desse tipo subiu de 3.500 para 4.440 unidades por ano. "O mercado brasileiro é extremamente competitivo e chegou a exportar US$ 19 milhões no ano passado", afirma o diretor executivo da Acobar, Lenilson Marcelo Bezerra. Com 7.400 km de costa ao longo de dezoito estados, o Brasil se torna um paraíso para os endinheirados amantes da navegação. Pensando nesse público, a feira Boat Show promove anualmente a apresentação dos barcos mais modernos e luxuosos do país. O evento acontece em São Paulo e Rio de Janeiro e gera pelo menos R$165 milhões de novos negócios por edição. É a maior feira desse tipo na América Latina.

Luxo a bordo

O aquecimento do mercado naval também se reflete no segmento de iates e barcos de alto luxo, que tem uma forma muito própria e complexa de criação dos seus produtos, incluindo o trabalho de decoração náutica já a partir da montagem da embarcação. O projeto de decoração tem como base o estilo de vida náutico do proprietário, adaptado ao fato de que a bordo tudo tem de ser bonito, prático e útil.  "O objetivo é proporcionar conforto a quem usa o barco", define Karol de Paula, decoradora da Intermarine, líder do mercado brasileiro de embarcações de lazer. "A base é ter lugar para tudo que deve ser guardado, como louças, talheres, roupas, CDs e DVDs, garrafas e outros objetos em armários, gavetas e nichos com suportes adequados às peças."

Acessórios de cozinha e de banheiro, almofadas, abajures, bandejas e fruteiras, por exemplo, têm dupla função: são utilitários e também peças decorativas. Nesse sentido, o alumínio ganha importância porque não enferruja e não escurece durante o contato diário com a maresia - nas panelas e em todos os acessórios da cozinha, exemplifica a decoradora. Embora uma lancha de alta performance ou um iate sejam produtos de extremo luxo, ambientes agradáveis resultam do respeito à regra de que menos é mais. "A única coisa proibida a bordo é o desnecessário", completa Karol de Paula.

Pré-sal abre negócios

O ano de 2009 foi especialmente positivo para o mercado naval brasileiro. Apesar da crise financeira, o setor foi altamente impulsionado pelo Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef), promovida pelo governo federal e pela Transpetro, além da recente descoberta de petróleo na camada pré-sal. Segundo o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), a indústria de navios e barcos brasileiros vive o melhor momento das últimas duas décadas e deve crescer até 50% em 2009.

Esse aquecimento significa lucros e oportunidades de negócios também para o setor do alumínio. Pelo menos 60% dos barcos chamados offshores - que dão apoio aos grandes petroleiros - são feitos com o metal.  A Novelis, por exemplo, desde 2008, investe na ampliação da capacidade de produção, vislumbrando justamente o mercado naval. A empresa aplicou cerca de US$ 21 milhões para elevar a capacidade instalada da linha de produção. "Embora 2009 tenha sido um ano atípico, por causa da crise, já vislumbramos contratos de fornecimento de até duas mil toneladas para 2010", afirma o gerente comercial de laminados da Novelis, Antonio Carlos Assis.

Os principais clientes da empresa são estaleiros como Fittipaldi, Cheri, Inace e o Grupo TWB. Ambos fabricam, principalmente, os chamados barcos de apoio e estão com encomendas até o final de 2011. "Atualmente estamos trabalhando com a fabricação de 28 embarcações simultaneamente, todas elas envolvendo alumínio", diz o engenheiro Fernando Sanford, da Indústria Naval do Ceará, a Inace. Há 28 anos a empresa projeta embarcações que utilizam o material e o carro-chefe é justamente o offshore. O estaleiro cearense tem 14 encomendas do produto, que consomem, em média, 130 toneladas do metal por unidade.

Nos últimos dois anos, a Inace adquiriu aproximadamente 800 toneladas de alumínio no mercado para a fabricação dessas embarcações. Segundo o engenheiro da empresa, a principal diferença do material para a fabricação dos offshores está no peso e na durabilidade. "São barcos que precisam de velocidade para chegar rapidamente às plataformas, além de serem duráveis", conta. Especialista em projetos navais, o engenheiro também afirma que o alumínio sofre menos efeito da oxidação do mar e dificilmente precisa ser reparado com menos de 20 anos de uso. "Há cascos com mais de duas décadas, que não apresentam qualquer efeito de corrosão do lado de dentro do navio. Mesmo fora, onde os efeitos do mar são mais visíveis, o metal possibilita o reparo com uma facilidade que nenhum outro tem", avalia Sanford.

Economia e perspectivas

As embarcações feitas totalmente de alumínio reduzem em cerca de 50% o peso total de um barco - no caso dos offshores, só para se ter uma ideia, se fossem feitos de aço pesariam em média 200 toneladas. Segundo o projetista da Inace, os navios de apoio produzidos com o metal apresentam vários ganhos de escala ao longo dos anos. "Por serem mais leves, essas embarcações precisam de menos tração dos motores. Isso permite maior velocidade, e também um consumo menor de combustível", calcula. "No preço final, apesar de o barco de alumínio ser 15% mais caro que o de aço, o investimento é compensado após menos de dez anos de navegação", avalia Sanford.  Ele lembra, ainda, dos benefícios ecológicos que o consumo menor de combustível traz. "É menos CO2 lançado na atmosfera e menos danos à natureza", comenta.

Além das embarcações de apoio, a Inace fabrica os chamados trollers, que são barcos de mais de 120 pés. Nesse modelo de navio, as cabines são construídas com alumínio, a fim de baixar o centro de gravidade da embarcação. Cada troller leva, em média, três cabines, cada uma com 12 metros de largura. É um modelo muito exportado para os Estados Unidos e cada unidade vendida consome aproximadamente 35 toneladas da matéria-prima, segundo o engenheiro da Inace.

A empresa cearense também trabalha com a encomenda de lanchas de alta velocidade, fabricadas totalmente com o metal. Atualmente, a Inace se dedica à fabricação de seis unidades: quatro para a Marinha do Brasil e duas para a Marinha da Namíbia, no continente africano. "É um mercado em franca expansão e, se as promessas do pré-sal se confirmarem, a indústria naval deve ficar aquecida pelos próximos dez anos", avalia Sanford.

Transporte de pessoas

O estaleiro do Grupo TWB é um dos mais importantes do país na fabricação de embarcações que utilizam o material. Localizado em Navegantes, Santa Catarina, a fábrica tem mais de 70 mil metros quadrados e permite a construção de navios de até 75 metros.  Desde 2008, a empresa também representa os projetos da australiana Sea Transport Solutions na América Latina. A companhia é dona do primeiro projeto de barco do tipo Ferry Boat totalmente de alumínio fabricado no Brasil - uma espécie de balsa luxuosa. Com tecnologia dual fuel, possibilita o uso de gás combustível e de óleo diesel para a navegação. A capacidade de transporte dele é de 610 passageiros e 74 carros de passeio, simultaneamente.

O estaleiro catarinense já tem cinco encomendas do modelo pela Petrobras, de acordo com Walter Boschini, vice-presidente comercial do Grupo TWB. "É um momento muito especial da indústria naval, nossa expectativa é quintuplicar as vendas de barcos de alumínio nos próximos anos, aproveitando essa onda de crescimento do mercado", diz.

O grupo TWB consome em média 500 toneladas do metal todos os anos. Em 2008, a empresa movimentou cerca de R$ 98 milhões só na construção de embarcações. O principal trunfo do grupo TWB, para os próximos anos, é a construção de módulos de acomodações em plataformas de petróleo. Desde 1995, a empresa oferece a fabricação, com alumínio, de dormitórios, cozinhas e sala de estar para os funcionários que trabalham na extração de petróleo em alto mar. Com capacidade de acomodação de até 192 pessoas, a construção desses módulos deve deslanchar nos próximos anos, com as encomendas da Petrobras: "Elas precisam ser leves, porque estão localizadas em alto mar e não podem prejudicar a estrutura que suporta a plataforma", conta Boschini.

A intenção da Petrobras é contratar pelo menos 10 plataformas marítimas até 2016, a um custo estimado entre US$ 1,7 bilhão e US$ 1,8 bilhão. "É um mercado potencial incrível, que nós também pretendemos participar", revela o vice-presidente da TWB.

Números do setor

O forte crescimento é impulsionado, principalmente, pelas encomendas da Petrobras e da Transpetro, que, juntas, foram responsáveis pela encomenda de quase 50 navios de grande e médio portes esse ano. Vários estaleiros brasileiros estão operando no limite da capacidade e foram responsáveis pela geração de pelo menos 45 mil empregos diretos, desde o início do ano, segundo o Sinaval. "As perspectivas do mercado brasileiro para os próximos cinco anos são muito positivas. Com o advento do pré-sal, a indústria naval brasileira já se desdobra na produção de navios sondas, navios de apoio marítimo, petroleiros e todos os equipamentos necessários para a exploração de petróleo no oceano", afirma Ariovaldo Rocha, presidente da entidade.

Para se ter uma ideia do potencial do mercado no Brasil, a Petrobras planeja encomendar pelo menos 146 embarcações até o final de 2014. São petroleiros, sondas, barcos de apoio, entre outros produtos. As encomendas da estatal devem superar a casa dos R$10 bilhões no período.

O Programa de Modernização e Expansão da Frota, gerido pela Transpetro, que também é subsidiária da Petrobras na área de distribuição de combustíveis, já investiu cerca de R$ 2,5 bilhões no mercado naval brasileiro desde 2004, com o objetivo de modernizar a frota composta atualmente por 52 navios com idade média de 23 anos. Até 2014, esse número cairá para apenas 19 navios petroleiros em condições de uso. Dessa forma, a empresa resolveu lançar o projeto de renovação e contratar pelos menos 49 navios de grande porte, além das já mencionadas 146 embarcações. O custo total é de R$ 5 bilhões e a Transpetro estima que o Promef proporcione cerca de 3.800 novas vagas de tripulantes no país até o final da implantação.

Fonte: Revista Alumínio, edição 21



   
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