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Entrevista com o presidente da ABAL
postado em 28/07/2010
 

O presidente da Abal, Adjarma Azevedo, analisa os desafios do setor de alumínio para os próximos anos

Por Inês Pereira

Adjarma Azevedo é testemunha e faz parte da história da indústria do alumínio. De sua primeira gestão como presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal) - iniciada no triênio de 1984 a 1987 - até hoje, na quarta, se vão 25 anos de mudanças de governo e políticas econômicas, crises internas e mundiais. Na época da sua primeira gestão foram implantadas as grandes fábricas de alumínio primário no Norte do país, na esperança de fazer do Brasil um celeiro do alumínio; nesse período a indústria também iniciou sua participação na autoprodução de energia.

À frente da Abal nos próximos dois anos, Azevedo conduzirá a associação no embate de questões que são de fundamental importância para o futuro do setor, como a competitividade, a concorrência internacional, o impacto econômico das mudanças climáticas e, talvez, o maior desafio de todos: o de evitar que o aumento das importações de alumínio não desestruture a cadeia produtiva, levando, no pior dos cenários, à desindustrialização. "Sempre tivemos de nos antecipar aos problemas e buscar soluções para os nossos associados, pois a Abal só subsiste se tiver a colaboração, em todos os sentidos, de seus associados." Acompanhe, a seguir, a conversa com o presidente.

 

 

 

 

 

 

 

Qual é a grande meta da sua gestão?
É trabalhar pela manutenção e expansão da indústria primária, que há 25 anos não instala uma nova planta no país; é preparar a nossa indústria para enfrentar os desafios que virão aí e ameaçam a sobrevivência do setor e é trabalhar em defesa da indústria transformadora de alumínio, frente à concorrência global de produtos de alumínio ou com o metal embarcado em produtos acabados.

Como a Abal está se preparando para enfrentar esses desafios?
O Conselho Diretor da Abal elaborou um Plano de Atividades para o biênio 2010/2011 com mais de 200 ações divididas em dez grandes temas fundamentais para a nossa indústria, como competitividade, desenvolvimento de mercado, relações institucionais e governamentais, entre outros. Uma característica importante desse plano é que ele não foi  feito de cima para baixo, mas com a efetiva participação das bases que sustentam essa associação, que são os grupos setoriais, as comissões, os comitês de mercado e os diversos grupos de trabalho.

Entre os temas que compõem esse Plano, a competitividade é primordial?
A competitividade da nossa indústria tem inúmeras facetas e o acesso à energia elétrica competitiva é uma delas. Entre os países produtores de alumínio, a energia elétrica brasileira é a segunda mais cara, se não a mais cara.  Esse é um fator que define a competitividade do alumínio e que o setor já percebera no início dos anos 1990, quando começou a investir em autoprodução de energia. Hoje, do consumo total de energia elétrica da nossa indústria, aproximadamente 33% é proveniente de produção própria, pois esse é o único caminho disponível, dentro do atual modelo do setor elétrico, para o produtor de alumínio primário ter acesso à energia elétrica a custos competitivos.

Há outros aspectos da competitividade que influem no setor?
A concorrência internacional é outro aspecto muito importante e que ameaça a indústria de transformação. A produção brasileira de transformados de alumínio é voltada essencialmente ao abastecimento do mercado interno, para setores estratégicos da economia, isso nos torna mais susceptíveis à concorrência externa de países que detêm uma capacidade produtiva muito maior que a nossa. Veja, por exemplo, uma indústria como a chinesa, que olha para o mundo em busca de oportunidades e vê um Brasil em crescimento. Os produtos chineses entram no país com custos competitivos, enquanto o empresário brasileiro tem sua margem de ganho espremida pelo custo do dinheiro no país, pela elevada carga tributária da cadeia produtiva etc.

E há ainda a questão cambial.
Exato, pois com o câmbio atual e a globalização da economia está mais fácil importar e mais complexo exportar. E nem estou considerando as barreiras protecionistas, que recrudesceram desde a eclosão da crise mundial em 2008. E, no bojo das mudanças climáticas, ainda veremos crescer no futuro taxações sobre a emissão de CO2 em produtos e processos.

Nesse caso, a indústria brasileira está preparada para mais esse desafio?
Em se tratando de sustentabilidade, a indústria brasileira do alumínio pode ser considerada uma indústria verde, quando comparada com a de outros países grandes produtores do metal, como os Estados Unidos, a Índia, a China e a Austrália. Enquanto o componente de nossa energia é, em sua maioria, hídrico, nesses países o que predominam são as usinas térmicas a óleo combustível e a carvão.

Então podemos considerar nosso alumínio um produto sustentável?
Tenho certeza de que os produtos de alumínio, com sua leveza, durabilidade e infinita reciclabilidade, já contribuem para a sustentabilidade do planeta. Veja, por exemplo, o alumínio aplicado em automóveis: cada quilo a menos no peso do veículo reduz a emissão de 20 quilos de CO2 durante toda a sua vida útil. Na construção civil, soluções de isolamento térmico e maior aproveitamento da luz natural, proporcionadas pelas esquadrias de alumínio, reduzem o consumo de energia elétrica. Por isso, podemos afirmar que o alumínio é fundamental para a sustentabilidade de diversos setores da economia.

Como a Abal tem trabalhado o desenvolvimento desses mercados?
A Abal já vem trabalhando, há bastante tempo, para o desenvolvimento do mercado interno com ações que incluem, por exemplo,  a defesa dos interesses do setor junto órgãos governamentais, ou a divulgação da indústria e de seus produtos por meio de campanhas, cursos, publicações e eventos como a ExpoAlumínio, o Congresso Internacional e o Seminário Internacional de Reciclagem do Alumínio. Além disso, a situação do Brasil enseja um grande crescimento no consumo de alumínio para os próximos anos com a realização Copa do Mundo, em 2014, e dos Jogos Olímpicos, em 2016, que traz a necessidade de investimentos em infraestrutura, hotéis, meios de transportes - e o alumínio é parte importante de tudo isso.

Como o senhor enxerga os próximos anos da indústria?
Por conta dessa crescente demanda de consumo de alumínio, que se contrapõe à estagnação da produção de metal primário, em poucos anos, o Brasil terá de começar a importar alumínio para suprir os fabricantes de produtos transformados. Pode vir a ser uma 'nova Austrália', país que estagnou sua produção de metal primário e se tornou uma grande produtora de bauxita e alumina; lembrando que o Brasil detém a terceira maior reserva do minério e já é o terceiro maior produtor de alumina do mundo.

Quais são os riscos de o Brasil se tornar importador de alumínio no futuro?
Se nada for feito em termos de disponibilidade de energia elétrica competitiva, e que torne o Brasil atrativo para investimentos em novas fundições de alumínio, passaremos a importar alumínio primário, ainda mais sucata e produtos transformados em geral. O risco é iminente, pois no ritmo atual de crescimento, estamos falando em três a quatro anos para que a curva de demanda ultrapasse a de oferta; e nesse período será muito difícil viabilizar a instalação de uma nova planta para produção de alumínio no país. De onde decorre nossa grande preocupação de que um aumento das importações de produtos transformados ou acabados de alumínio, que já está acontecendo, provoque uma desestruturação do mercado como ele está atualmente estabelecido, podendo levar, no pior dos cenários, a uma desindustrialização generalizada.

Nesse contexto, qual será o maior desafio do setor daqui para frente?
Nosso maior desafio é recuperar a competitividade do setor, para não nos tornarmos um produtor de matéria-prima básica e regredirmos na cadeia produtiva da indústria. Temos de defender a indústria primária, pois nenhum país que almeja o desenvolvimento pode prescindir de suas indústrias de base, e temos de defender a indústria transformadora, responsável por milhares de empregos diretos e indiretos, além de vital para o abastecimento dos principais segmentos da economia.

Qual é a solução para esse cenário?
A indústria do alumínio é estratégica para a economia do país, por isso entendo que a busca de possíveis soluções deva ser em conjunto com o governo brasileiro. Vejo como saída o governo investir numa política industrial forte, de tal forma que se tenha energia competitiva para instalarmos novas plantas de alumínio, agregando valor à matéria-prima e desenvolvendo as regiões onde essas fábricas se instalam, bem como adotar políticas de defesa que visam reduzir a exposição da indústria brasileira à invasão de produtos importados.

É este o seu maior desafio nesses 40 anos de Abal?
Cada momento teve suas ocorrências, e foram muitas: de preços controlados pelo governo a racionamento de energia, e conseguimos sobreviver, mas sempre tivemos de nos antecipar e buscar soluções.  Nesses 40 anos, destaco o empenho dos associados, pois a Abal só subsiste com a colaboração, em todos os sentidos, de seus associados. Senão, nada disso é possível, é um moto contínuo.

Fonte: Revista Alumínio, edição 23

 



   
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